Não é novidade nenhuma saber que de situações desagradáveis podem resultar experiências que nos tocam de forma especial. Sem entrar em grandes pormenores, para não correr o risco de me tornar maçador, adianto apenas que o episódio em questão se deveu a uma avaria no carro.
Não, não foi o meu "Boguinhas" que me deixou pendurado. Aliás, nunca o fez e acredito piamente que tal não irá suceder pois tem os cuidados do melhor médico da especialidade que conheço e que o trata como se fosse da família (o sr. Indalécio).
Voltando à avaria, que aconteceu em plena Rua da Madalena, Lisboa, apesar dos indícios de má disposição da máquina terem disparado ainda antes da Praça do Comércio, a espera pelo reboque foi um pouquinho exasperante. Valeu estar acompanhado - por mais estranho que à distância me possa parecer - pelo melhor duo que podia ter naquele momento. Entre nós, pudemos desabafar sem filtros, comentar os transeuntes que desciam e subiam a rua e, imagine-se, até sorrir (a vontade de gargalhadas não era grande, até porque o último episódio de "Equador" já era!).
Já no reboque, a caminho da Cova da Piedade, tive a melhor terapia que podia ter naquele momento.
(telemóvel toca)
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Oi mor, como você tá? (...) A tensão está assim tão alta! Faz o seguinte: faz um chá de camomila e toma meio comprimido, é o melhor. Às 05h30 eu estou em casa e depois vemos como está a sua tensão. Beijo... (imaginem um sotaque brasileiro)
Posso dizer que depois deste telefonema fiquei a saber que o problema de tensão da senhora agravou-se com a chegada da menopausa. Ao contrário do que seria normal, não senti o tradicional "o que é que tenho a ver com isso". A conversa fluiu. Falámos de variadíssimos assuntos. Portugal, Brasil, Setúbal, Rio Grande do Sul (o sotaque revelava as origens), Castelo Branco, nordeste brasileiro. Falei-lhe de uma conterrânea, a Jaqueline, que conheci há pouco tempo. Pensei para com os meu botões que o Rio Grande do Sul deve ser a capital da "gente boa"...
Nunca 40 minutos com uma pessoa com quem estive pela primeira vez na vida me souberam tão bem. Desconforto? Nem um pouco. Empatia imediata, isso sim!
Antes de chegarmos ao destino perguntou-me se ia ficar na Cova da Piedade. Disse-lhe que tinha o meu carro a cerca de 10 quilómetros da oficina onde iríamos deixar o carro avariado. Lamentou da forma mais franca que se possa imaginar não poder levar-me, uma vez que as distâncias percorridas são monotorizadas ao mílímetro.
Se fosse a dois ou três quilómetros, disse...
Tal como o meu barbeiro, o sr. Janeiro, atrás da sua tesoura, constatei que por detrás de um volante de um reboque está uma pessoa interessantíssima com quem não me importava nada de cruzar mais vezes na vida. Pena não poder, ao contrário da cadeira do sr. Janeiro, que sei bem onde fica, dispensar, de tempos a tempos, para uns dedos de prosa enriquecedora, a companhia do sr. do reboque que mora em Caneças.
Antes de nos despedirmos fiz questão de dizer-lhe que tinha sido um prazer conhecê-lo e que, se não se importasse, gostaria de saber o seu nome. Está no título.